Em livro, pesquisadora de MS apresenta ferramenta inovadora para prevenir assédio e riscos psicossociais em organizações
TJMS foi o 1º tribunal estadual do país a incluir ferramenta em seu organograma oficial
As relações de trabalho mudaram muito nas últimas décadas, fazendo com que instituições
públicas e privadas tenham que cumprir diversas obrigações para proporcionar um
ambiente profissional equilibrado, saudável e justo.
Entre as normas que estabelecem parâmetros para isso está a NR-1 (Norma
Regulamentadora nº 1), que em 2026 passou a exigir a inclusão formal dos riscos
psicossociais – como estresse, assédio e burnout – no GRO (Gerenciamento dos Riscos
Ocupacionais) das empresas.
Além da NR-1, no âmbito das insituições privadas, também existe a Resolução 351 de
2020, que é a Política Nacional de Prevenção ao Assédio Moral, ao Assédio Sexual e à
Discriminação do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), que estipula mecanismos de
prevenção e combate o assédio moral, sexual e qualquer tipo de discriminação dentro de
todo o Poder Judiciário brasileiro.
No entanto, apesar da existência dessas normativas, colocá-las em prática ainda é
um grande desafio a ser transposto no país.
Pensando nisso, e especialmente na necessidade da prevenção ao assédio, a
advogada e pesquisadora sul-mato-grossense Fernanda Baldo elaborou uma
ferramenta capaz de transformar essas determinações em práticas concretas dentro
das organizações.
A essa ferramenta ela deu nome de Núcleo de Acolhimento, tema principal de seu livro
Cortes Silenciadas, uma obra que nasceu de uma inquietação da autora.
Livro ensina a prevenir o assédio na prática
Servidora pública desde 2008 e, atualmente, Analista Judiciário do TJMS (Tribunal de
Justiça de Mato Grosso do Sul), Fernanda já ouviu dezenas de relatos sobre assédio no
Poder Judiciário.
Experiências na Defensoria Pública, Ministério Público, Judiciário e, também como
professora e palestrante, fizeram-na refletir sobre o por que as pessoas agem assim;
levando-a ao questionamento: “como situações de injustiça poderiam ocorrer justamente
dentro da ‘Casa da Justiça’?”.
Por isso, Fernanda decidiu pesquisar o tema em seu mestrado em Administração Pública
pela UFMS (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul), que teve como foco a gestão
humana e social nas organizações.
Durante a pesquisa, a autora analisou os 27 Tribunais de Justiça estaduais do país e
identificou a ausência de um espaço específico onde trabalhadores pudessem buscar
acolhimento e orientação diante de situações de assédio, apesar do que determina a
Resolução 351 do CNJ.
Foi a partir dessa constatação que surgiu a ideia do Núcleo de Acolhimento, uma iniciativa
inicialmente pensada para o Judiciário e posteriormente percebida como uma estrutura
totalmente viável em qualquer outra instituição pública ou privada.
Como fruto de sua pesquisa, o TJMS foi o primeiro tribunal estadual brasileiro a
instituir um Núcleo de Acolhimento institucionalizado como parte de seu
organograma oficial.
Essa conquista colocou Mato Grosso do Sul como pioneiro, mas também revelou os
desafios, Brasil afora, no estabelecimento concreto de políticas de prevenção ao assédio.
O que é o Núcleo de Acolhimento?
Além de ser uma ferramenta de gestão de baixo impacto financeiro, o Núcleo de
Acolhimento é um espaço físico onde se oferta escuta qualificada, formações e atendimento
inicial, sendo um meio que contribui para a identificação preventiva de riscos.
Ou seja, o espaço tem como objetivo ser um ambiente seguro de escuta, orientação e
identificação precoce de situações de violência.
É nesse espaço onde Fernanda agora atua diretamente promovendo caminhos e atividades
de salvaguarda à dignidade dos profissionais, de prevenção do assédio e de proteção dos
direitos humanos.
A proposta busca tornar a prevenção uma constante dentro da organização, aparecendo em
campanhas, atividades e projetos transversais ao longo do ano.
Assim, para Fernanda, não se trata apenas de criar uma sala ou um canal institucional, mas
de estabelecer uma cultura de respeito, um ambiente no qual o trabalhador possa se sentir
seguro.
A autora explica que essas estruturas, além da mudança no clima organizacional da
instituição, proporcionam a possibilidade de regulação emocional, e muitas vezes isso é
tudo o que a pessoa precisa no momento. “Não estou ali para impor soluções. Nosso papel
é fazer uma escuta ativa e, por meio do que essa pessoa traz, oferecermos caminhos a ela.
Assim, ela mesma poderá escolher o caminho que deseja seguir, apropriando-se das
rédeas da própria vida”, completa.
É até por isso que os profissionais responsáveis pelo acolhimento precisam ter preparo,
empatia, capacidade de manter o sigilo e disposição para oferecer uma escuta qualificada.
Assim, mudanças estruturais nas organizações ficam menos distantes e cada vez mais
possíveis. Afinal, o desafio não termina com a criação de um Núcleo de Acolhimento.
Desafios na implantação de Núcleos de Acolhimento
Segundo Fernanda, um dos desafios para a efetivação dessa iniciativa é a compreensão de
seu caráter essencialmente preventivo e acolhedor; e de que a gestão precisa ser empática,
assertiva e humanizada, favorecendo a mudança da cultura organizacional.
Ou seja, o objetivo do Núcleo de Acolhimento não é fornecer um atendimento que parta da
lógica da punição, mas – como o nome já diz – do acolhimento e respeito, tanto ao sigilo,
quanto à vontade da pessoa que procura ajuda.
“É uma atuação voltada a não simplesmente apagar o incêndio, mas prevenir o
incêndio, e essa é uma mudança cultural que vem acontecendo. Em outras palavras,
a lógica deixa de ser exclusivamente a da reparação de danos depois que a violência
acontece e passa a incorporar a responsabilidade de identificar e gerenciar riscos
antes que eles produzam consequências mais graves”, esclarece a autora.
Assédio, gestão abusiva, sobrecarga de trabalho, comunicação violenta, conflitos
interpessoais e discriminação são situações que já não podem mais ser ignoradas e
precisam ser consideradas com prioridade pelas organizações.
Assim, para Fernanda, a prevenção também exige que as lideranças desenvolvam uma
gestão mais empática, assertiva e humanizada, sem confundir humanização com ausência
de cobrança ou de responsabilidade.
Acolhimento não é tolerância excessiva
“A gente não está falando que agora ‘ah, o gestor vai ficar só no ‘mimimi’ e passando a mão
na cabeça do funcionário’. Não, de forma alguma. O gestor vai pontuar de forma clara e
assertiva o que precisa ser feito, e conhecer a realidade do trabalhador, agindo de acordo
com isso”, detalha.
“Não é conhecer de ir pro churrasquinho”, pontua a autora ao abordar a relação entre
gestores e trabalhadores. Para ela, conhecer quem integra uma equipe significa reconhecer
as competências, compreender suas necessidades e dificuldades, e identificar limites para
oferecer suporte quando necessário.
Por isso, o foco da obra não é apenas a pessoa vítima de assédio no ambiente de trabalho,
mas o ambiente de trabalho em si. É mostrar que, com uma comunicação não-violenta,
assertiva, respeitosa e com técnicas, é possível deixar o clima da organização mais
adequado para que as pessoas desenvolvam seus talentos.
“Não é uma ‘caça às bruxas e feiticeiros do assédio’, mas uma busca pela construção de
um ambiente melhor, com ferramentas replicáveis e acessíveis. Um espaço físico seguro
para conversas com sigilos e com base na comunicação adequada, sendo, assim, um
instrumento de mudança cultural”, sintetiza a autora. E tudo isso pode ser desenvolvido no
Núcleo de Acolhimento.
O Núcleo como agente da cultura organizacional
Em Cortes Silenciadas, o debate sobre assédio é ampliado para uma questão fundamental:
como instituições públicas e privadas podem ser locais onde respeito, segurança, dignidade
e saúde não sejam apenas princípios previstos em normas, mas valores efetivamente
incorporados à cultura organizacional?
Para a autora, transformar realidades requer coragem, e tempo também. “A literatura
científica traz que, para mudar uma organização, um clima organizacional, eu tenho no
mínimo cinco anos de trabalho de ações constantes. Então, para conseguir começar a ver
resultados, são, no mínimo, cinco anos”, explica.
“Ambientes saudáveis não surgem por acaso. Eles são construídos diariamente por
relações baseadas em respeito, escuta e dignidade”, destaca a pesquisadora.
E essa mudança geralmente esbarra em outros dois grandes desafios: o medo de retaliação
e a falta de confiança nos mecanismos de denúncia; fatores que contribuem para o silêncio
de trabalhadores que vivenciam situações de assédio, especialmente o assédio moral.
“Foi justamente este aspecto que deu nome ao livro: esse silêncio, esse medo. E
como minha pesquisa analisou a realidade do Judiciário, assim foi definido o nome
Cortes Silenciadas”, compartilha.
Números do assédio no trabalho
Embora o assédio sexual esteja frequentemente associado ao tema, Fernanda ressalta que
o assédio moral aparece de forma mais recorrente nas relações de trabalho.
Para se ter ideia, na Justiça do Trabalho foram iniciados 12.813 novos processos de
assédio sexual em 2025. Já o número de novos processos de assédio moral chegou a
142.828 no mesmo ano.
Em Mato Grosso do Sul, o TRT/MS (Tribunal Regional do Trabalho da 24ª Região) registrou
1.116 novos processos de assédio moral no trabalho em 2025, contra 125 de assédio
sexual no mesmo ano.
Mesmo assim, em ambos os casos, houve aumento expressivo de novos processos
iniciados em 2025 na comparação com 2024: o crescimento foi de 40% no número de
novos processos de assédio moral e de 66,7% nos processos de assédio sexual,
ainda conforme dados do TRT/MS.
E como o assédio moral se manifesta? Em situações cotidianas, como isolamento,
comunicação inadequada, desqualificação, cobranças incompatíveis ou exigências feitas
sem que o trabalhador tenha recebido orientação adequada.
Portanto, reconhecer esses comportamentos e compreender como eles se relacionam com
a cultura organizacional é parte fundamental da proposta preventiva apresentada no livro.
“Por isso, o objetivo do livro é mostrar que a prevenção ao assédio começa antes da
denúncia, que a educação é uma ferramenta, que a conversa e a escuta são ferramentas, e
que o ser humano vale muito a pena”, finaliza a pesquisadora.
Para mais informações sobre a obra Cortes Silenciadas e o trabalho da autora,
acesse o Instagram: @gestaoderespeito.
SERVIÇO:
Lançamento do Livro Cortes Silenciadas, de Fernanda Baldo.
Data: 24 de setembro de 2026, às 18h30.
Local: TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul).
Assessoria de Imprensa:
Liana Feitosa – (67) 98177-3923.

